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Trauma
É traumático tudo aquilo que é sentido como ultrapassando as nossas capacidades, remetendo-nos à impotência para resolver a situação de uma qualquer forma que nos permita sentir que temos algum controlo sobre ela. Habitualmente, distinguem-se traumas com "T" grande, que se referem às situações em que a nossa sobrevivência é ameaçada, e traumas com "t" pequeno. Nestas situações estão incluídos todos os acontecimentos que, independentemente de uma qualquer medida objectiva e exterior de magnitude, nos afectam de uma forma que excede os recursos que, nessa altura, temos disponíveis. Por isso, por exemplo, uma criança pode desenvolver uma reacção traumática face a uma circunstância que, quando olha para ela em adulto, lhe parece absolutamente trivial, esquecendo-se que uma criança tem consideravelmente menos recursos do que um adulto.

As reacções ao trauma são diversificadas, podendo afectar uma pessoa de forma temporária e mais contida, ou chegar a ter impacto na sua estrutura de personalidade, moldando reacções mais alargadas no tempo. A complexidade e gravidade destas reacções é muito variável, mas interfere sempre, nalguma medida, com a forma como nos vemos a nós próprios, a forma como nos sentimos e a forma como nos relacionamos.

Alguns indicadores que fazem suspeitar de uma reacção traumática: lembranças perturbadoras da situação traumática (total ou parcial), intrusivas e recorrentes, muitas vezes vivenciadas como se estivessem a ocorrer no momento presente, o que se torna muito assustador, e recorrência de pesadelos sobre o acontecimento traumático. Outro indicador é um forte mal-estar psicológico ou, mesmo, com sintomas físicos quando a pessoa é exposta a aspectos (concretos ou simbólicos) que fizeram parte do acontecimento original. Não é de admirar, portanto, que as pessoas se esforcem por evitar tudo o que se relaciona, directa ou indirectamente, com os aspectos que caracterizaram a situação traumática: pessoas, locais, cores, sons, etc. Este esforço de evitamento pode, mesmo, chegar a extremos, como, por exemplo, a pessoa não se conseguir lembrar de partes ou da totalidade do acontecimento traumático.

Acontece, muitas vezes, que a reacção não surja logo após o acontecimento traumático - pode, até, surgir bastante tempo depois. Por isso, nem sempre as pessoas relacionam o que estão a sentir no momento presente com o que lhes aconteceu no passado; apenas sabem que se sentem mal ou que algo está errado, sem conseguirem definir muito bem o quê.

Como se trata?
Apesar do enorme impacto que tem na qualidade de vida, surpreendentemente, trata-se com bastante rapidez, com recurso a uma técnica recente e muito eficaz, tendo sido especialmente concebida para facilitar o processamento traumático: EMDR.

As intervenções baseadas em EMDR são poderosas, uma vez que se criam as condições para que o cérebro processe, actualize, transforme a memória do acontecimento, retirando-lhe a sua valência patológica e permitindo que as pessoas retomem uma abordagem funcional e adaptada.

Por vezes, conseguem-se, mesmo, tratar situações graves, geradoras de elevado sofrimento ao longo de anos, em poucas sessões, e sem necessidade de elaborar em profundidade sobre os detalhes do que aconteceu o que, nalguns casos, poderia ser retraumatizante.


Um caso
Este é um caso de trauma com "T" grande, porque se trata de uma situação de violação no início da adolescência. A cliente, de trinta e poucos anos, surgiu com queixas que se referiam à sua situação conjugal. Pouco a pouco, os contornos do seu mal-estar foram ficando mais definidos, permitindo relacionar os problemas actuais e a sintomatologia que a perturbava com a situação traumática passada.

Apesar de ser aconselhável ter tido mais tempo para investir no trabalho sobre algumas questões específicas do seu relacionamento conjugal e para integrar melhor os aspectos em que se interviu, o acompanhamento psicoterapêutico teve de ser abreviado, porque a cliente partia para trabalhar no estrangeiro. Assim, com apenas 5 sessões, e recorrendo sobretudo ao EMDR, conseguimos eliminar muitos dos sintomas actuais que a afligiam - como os pesadelos, um permanente estado de alerta e o humor depressivo - e criar uma nova perspectiva sobre o seu casamento que constituísse uma base de reorganização futura.




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